quinta-feira, 5 de novembro de 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

FÉLIX

O sítio Félix passava uma seca medonha. Já vinha assim um tempo: o que era verde, amarelando, o que era amarelo, amarronzando. Somente à tardinha, quando o sol se recostava no morro é que eu saia da casa e andava pela sombra das árvores, pisando as folhas secas, que estralavam, puindo-se. Era esta a diversão das minhas férias: pisar folhas secas, trucidá-las numa vingança contra a minha saída de Garanhuns. Lá havia as praças, os bares e os cinemas. Os amigos todos estavam lá. Aos sábados as meninas chegavam em grupos para as sessões do Cinema Jardim. As mais ousadas assistiam à última sessão, sentavam ao lado dos rapazes e saiam da sala ajeitando os vestidos e os sutiãs. Tudo já combinado entre nós. Tudo como se nada tivesse acontecido. Garanhuns era uma cidade aberta para o mundo, crescendo. Pululando, entre braguilhas e vestidos. O sítio Félix tinha cerca de estaca e arame farpado, tinha os engana bois¹, tinha cancela batendo no mourão. Tinha a seca. A seca na cidade era a falta d’água, se resolvia com os carroceiros. O caminhão pipa enchia as cisternas por um mês. Todo mundo tomando banho, cozinhando, lavando pratos, roupas e ainda sobrava água. A seca nos sítios era um deserto. O descampado amarelando e amarronzando. A mesma coisa que um filme de guerra. O cenário queimado e os corpos tombando. Os soldados tombando nas guerras e as reses nesses rincões.

Só mesmo a noite é que se tinha uma visão mais amena. Nessas horas todo era escuro, sem amarelo e sem marrom, só o escuro consolador. A noite trazia o estouro do vento reprimido, esfriando as paredes e o sangue do povo dali. Dentro da casa se ouvia as folhas sendo varridas, a cancela batendo no mourão e os assobios entrando pelas telhas.

***

Amanhecia.

Beirando a cancela, os homens se amontoavam. Uma rês havia caído. A muito custo lhe puseram uma estaca por baixo e a forçaram como alavanca. A rês fraca, as costelas a furar o couro, a boca petrificada. Os olhos redondos, num brilho triste, o nariz rombudo. Dilatado. Eu vendo aquela tristeza toda, aquele trabalhão de sísifo. Pensava em Garanhuns, o caminhão pipa, a braguilha de deixava abrir, os vestidos que levantava.

Um vaqueiro do sítio Mulungú ia passando e se prestou a ajudar. Cigarro de fumo a boca. A cara chupada, o chapéu de couro empretecido, a barba rala. O relógio oriente folgado no braço sem pelos. A camisa aberta até o peito, as costelas, o escapulário de Nossa Senhora. Numa fala avexada ia dando ordens. Aqueles homens tinham força para levantar cem bois. O que lhes faltava era a manha do vaqueiro do Mulungú, que sabia a hora e quando gastar a força. Assim, avexado nas ordens e nos gestos, foi tomando a frente na empreitada. Os rostos mascaravam-se em caretas. As musculaturas contorcidas. As veias inchando, pareciam cobras.

Puseram a rês de pé. Sustentava-se mal nos cambitos. A anca sorvida. O lombo num graveto. O couro fino igual uma chita. A cabeça pendendo como se recebesse má notícia e o mundo fosse um desconsolo só. O vaqueiro do Mulungú sorriu depois do feito e foi embora. “No Mulungú eles fecham o corpo com o diabo.” Disse um dos trabalhadores do Félix.

***

Aquela noite foi de pouca ventania e meu pai saiu para o alpendre. Picotava o fumo. Aninhava-o na seda, embrulhava e passavam a língua, colando os cigarros. Tragou fundo e contou os casos da seca. Muitos casos que até cheguei a pensar que eram inventados. Meu pai dava uma cuspida na fogueira e o cuspe ardia, limpava a boca na manga e falava numa entonação arrastada, como se a voz quisesse voltar para trás.

“Seca dessas nunca houve não. Nunca houve de jeito nenhum. Tem família aí fazendo sopa de mato. Sopa de palma que rende mais caldo. Já pensou isso, disputar comida com os bois? Veja mesmo que desgraceira. Em Bom Conselho mesmo estão matando tudo que é rês e salgando. Dizem que não carece lutar em vão. Cada um que sabe a sua necessidade. Cada um sabe onde o Calo lhe aperta. Agora eu é que não tenho coragem de comer cria minha. O Bicho criado pra servir, amenizando tanto a luta por aqui, dando leite, o lombo a cargas, arando ou somente vivendo por aí, pra cobrir a paisagem e alegrar nossa vista e depois eu matar minha cria. Mato nada. O diabo que mate e coma, eu mesmo não.”

Meu pai herdou o sitio Félix de meu avô Severiano. O Félix era um tapete naquela época, verdinho, verdinho, pelas fotos antigas você adivinhava a cor, e agora estava numa desgraceira daquela: amarelando, amarronzando, gretando e puindo. Tudo numa precisão de milagre. O milagre que não vinha. Rezava e rezava e ainda tinha que se rezar mais. No oratório o Padre Cícero, de cabeça branca e vestido de luto, segurava uma bíblia cheia de salmos e dizeres de Deus. Na outra mão impunha um cajado. “A bíblia para os homens e o cajado para as reses.” Foi o que o meu pai disse.

“Mandei que viesse passar um tempo comigo, agora que é recreio dos estudos, porque já é tempo de me despedir de você. Estou velho e cansado. Estou mais do que velho e cansado. Vou ficar aqui igual essa imburana. Escrevi nela o nome da finada, fiz um coração e tudo. Vou cavar um buraco ao pé da imburana e quando sentir que estou perto de morrer eu mesmo me enterro. Eu mesmo chegarei terra para cobrir o corpo e evitar que os urubus me arranquem um pedaço. Quero morrer inteiro. Quero chegar inteiro no céu. Não faça essa cara menino, você já é um homem, sei do que anda fazendo em Garanhuns. Estou bem informado dos namoros. Puxou ao velho. É coisa de família, teu avô também era assim: desgovernado da peia. Agora escute o que vou lhe dizer: eu morrendo num dia, no outro venda isso e termine seus estudos, faça carreira, tenha família e tudo mais. Só peço que espere eu fechar os olhos. Deixe eu dormir primeiro junto da finada. Depois venda logo a terra senão a coisa desvaloriza. Senão o sobrenome Félix não valerá um vintém.”

***

Pela manhã a rês amanhecera caída. Os homens correram para acudir à coitada.

“Essa nem chegou a dar leite e o diabo do cão já levou.”

A rês dura. Os olhos abertos, sem brilho. As moscas entrando no nariz rombudo. Tomando o rabo tísico. Caíra sem ter quem lhe valesse. Devia ter passado a madrugada agonizando, no limite entre viver e morrer. Devia ter morrido com a dor lhe entalando. Os ossos lhe entalando embaixo da imburana.

_________

¹Parte da cerca de arame farpado onde se encontra uma abertura desenhada a forma da letra 'C', que se pode contornar por um homem, chegando de um lado a outro com relativa facilidade, sendo preciso apenas atenção para a pele e a roupa não rasgar nas farpas da cerca. Já o animal, o boi a ser mais preciso porque uma galinha, um gato e um cachorro de pequeno porte consegue muito bem utilizar esse desvio, pois como sabemos: são animais ágeis e inteligentes ou inteligentes porque justamente são ágeis, estes sim, podem passar por ali, mas não o boi com sua vida em câmera lenta e seu corpão para abate.

domingo, 25 de outubro de 2009



SUGIRA ALGO QUE APERFEIÇOE O QUE EU JÁ TINHA FEITO

Mas suponhamos que houvesse uma segunda época da criação do mundo. Se fosse possível passar uma borracha em tudo que está aí e depois que tudo ficasse branco me fosse dado à oportunidade de sugerir alguma coisa ao criador. “Sugira algo que aperfeiçoe o que eu já tinha feito”. Depois do susto, porque esta voz viria forte a semelhança dos trovões de dezembro, eu sugeriria um melhor uso da pele.

Óbvio que lhe teceria elogios pelo invento: um tecido costurado direto no corpo, com elástico embutido; que nos permite crescer para cima e para os lados se ajustando a isso sem nos apertar e descosturar. Aliás, a costura disto é o mais completo mistério, não sabendo mais o criador onde que se dá a última ponta da costura. O ponto que geralmente recebe um nó, seguido de outro e quantos forem precisos para que daquele ponto a costura não desalinhe, esfarelando e descosendo.

Eu sugeriria ao bom criador que seguisse o exemplo do vendedor de picolé que utilizava a calça jeans, todavia, pelo lado convencional, que é este em que o bolso e a braguilha ficam escondidos. Pois sendo o picoleseiro filho do criador, e por isso dotado de sabedoria, resolveu, depois de um tempo, vestir as calças as avessas. E ficou sendo isto uma grande novidade na cidade de Santo Antônio de Garanhuns, onde as pessoas são conservadoras e vaidosas no pentear e sobretudo no vestir.

Achou ele que sendo a calça muito usada e, em consequência, muito lavada, o tecido exposto ao sol e a chuva, a tinta de muro, suor das mãos e ainda a poeira soprada, tudo isto, acumulado num dia e noutro mais, acabaria por esgarçar a roupa, que muito suja exigia muitas lavagens com esfregões de escovas (estas com cerdas duríssimas) e muito esfregar nas mãos, que mesmo se utilizando de sabão neutro ou outro sabão que perfume e limpe, teriam as mãos o seu couro carcomido, pois é sabido que algumas sujeiras só desaparecem mesmo com o friccionar das mãos, conforme pregam as antigas lavadeiras nos seus queixumes contra as máquinas de lavar. E sendo assim, pelo processo natural das coisas que se gastam com o uso, a calça jeans do vendedor de picolé teve sua cor azul desaluzada ou bufenta como diria a pessoa de mais idade. E tão branca agora, daria se a sujeira com mais facilidade, já que o branco é uma cor que se suja com a própria limpeza. Pois é aí que está o golpe de mestre do picoleseiro. Passou ele a usar a calça as avessas, conforme já dissemos aqui, e o fez pelo simples motivo deste lado conservar a cor forte, como no dia que saíra da loja. Simples a ideia que teve o vendedor de picolé. A bem da verdade uma idéia de concepção boba, de pouca reflexão e mais observação, o que os mestres universitários denominam de ‘empirismo’.

Deu-se a ideia assim: um dia fez tanto calor que a vendagem dos picolés tornara-se um fenômeno incalculável e o guardar dinheiro e dar troco acabaram por descosturar a calça. Ficando o bolso com uma parte dependurada, igual um jogador de futebol quando tem a perna fraturada. E sendo assim o picoleseiro achou por bem arrancá-lo fora, o que é muito fácil, não sendo o bolso uma perna.

E foi esta atitude, porque não dizer grosseira, que o fizera perceber que a parte interna, não sendo lavada e não levando sol, permanecia a cor natural, que é o azul forte, típico do jeans.

Pois se me fosse permitido sugerir algo, nesta nova criação do mundo, o que provaria ser o Bom Criador um governante aberto ao diálogo, sugeriria o exercício de trocar a pele de fora, de muito uso, pela de dentro, que por não estar exposta, está certamente conservada, se o seu dono não for um estragado em consumo de cigarros, refrigerantes, ketchups e outros corrosivos.

Para o exercício de troca de pele seria preciso estipular algumas ordens, nem tudo poderia ficar no livre arbítrio, pois este existindo é que existe a desordem no mundo, já dizia B. Russell. Sendo logo preciso estipular uma data para a troca, ficando estabelecido para ambos os sexos a troca-total-de-um-lado-da-pela-por-outro para aqueles que alcançassem a idade dos quarenta anos (justificando ser esta a metade de uma vida sem grandes acidentes) e permitida uma nova troca na idade dos oitenta, mas já se sabendo que esta pele não será encontrada sem uso ou semi-nova, podendo o octogenário optar pelo lado que estiver menos desgastado ou simplesmente optar por não vestir mais a pele, o que seria, convenhamos, a total nudez.

sábado, 24 de outubro de 2009


Próxima segunda-feira (29-10-2009) estarei ministrando a oficina: LITERATURA EM TEMPOS DE BLOGS, no Laboratório de Autoria Literária Luzinette Laporte, do SESC Garanhuns.

Nas paredes das cavernas, nas tábuas, nos couros, nos papiro, nos papéis, nos muros, nas peles, nos celulares, nos blogs e nos twitters, até onde vai à literatura?

Venha trocar ideias sobre este e outros temas referentes a literatura em nosso tempo.

SERVIÇO:

Ação: Oficina de Literatura em Tempos de Blogs

Projeto: Laboratório de Autoria Literária Luzinette Laporte.

Oficineiro: Helder Herik

Período de realização: De 29 de outubro a 30 de novembro

Horário: Das 19h às 22h

Dias: segundas-feiras

Público alvo: escritores, poetas, professores, universitários e afins.

Local: Sesc Garanhuns

Informações: 87 3761 2658 / 9921 3565

Inscrições abertas. Grátis.

domingo, 18 de outubro de 2009



CARRANCA
Para Wagner Marques

Se os nossos mortos não fedessem, digo, se não apodrecessem, teríamos ainda a coragem de enterrá-los, de mandar para baixo da terra quem nos banhava e perfumava, nos matava a fome, vestia, curava a febre, aturava má criação, educava e amava? Porque não conservá-los na sala, como fazemos com os retratos e as carrancas? Cuidaríamos para que não pegasse mofo, estaríamos sempre espanando e passando hidratante. Não deixaríamos que as crianças o riscassem ou arrancassem a cabeça. Se a criança for responsável até poderia brincar de boneca, vestindo roupinha e tudo. Devia ser assim: a pessoa quando é viva solta tanto cheiro no mundo que depois de morto os cheiros deveriam cessar, porque não há mais comida e nem suor, nem dentes para escovar e axilas para cuidar. O morto ainda poderia perfumar a casa. Era só lhe abrir a boca e borrifar na língua seu perfume predileto ou sendo mais econômico, por uma ou duas pedrinhas de naftalina. Que perfeito que ficaria a casa toda perfumada, já pensou? Até o defunto se sentiria melhor e ele mesmo é quem passaria a nos lembrar das borrifadas de perfume e das pedrinhas de naftalinas.

domingo, 11 de outubro de 2009


OS MORTOS DA GERVÁSIO PIRES
Parte: 7

a família de Seu Acapita

A casa de Seu Acapita estalava. Nas paredes havia rachões que pareciam o mapa do Nordeste. “O da cozinha tem o desenho da América.” Dizia o velho Acapita, tirando chacota com a própria desgraça. “O Ronald Reagan toma café comigo”.

***

Seu Acapita tinha uma família dessas alinhada que, a mando igreja, saia pelas ruas da Boa Vista fazendo campanha. Os filhos andavam com uma pasta preta, de James Bond, que se abria levantando os trincos que ficavam nas extremidades. Tlec, os trincos faziam na prática de serem abertos ao mesmo tempo. Sincronizados. Eram quatro os filhos de Seu Acapita. Três homens e a menina caçula de cabelos espetados, que vivia no braço, balançando um chacoalho com bolinhas coloridas e fazendo bolhas de cuspe na boca que fazia um zumbidozinho. Algumas bolhas cresciam igual as de sabão. “Besouro, ela vive fazendo besouro”, diazia Seu Acapita, estourando-as com o dedo. De quando em quando uma bolha maior explodia tocando no nariz, fazendo cócegas e provocando um riso gasguento da pequena.

Quando os filhos de Seu Acapita saiam à rua a vizinhança brincava, dizendo que a escadinha de Acapita vinha subindo. A esposa, D. Nalha, vivia colocando berilo de pontas vermelhas na cabeça. Botava um punhado na boca, chupava os lábios, mordendo-os e começava a enfiar os arames nos cabelos, que aos poucos assentavam no casco. Quando sentia que o trabalho de casa ou a borrifada de vento lhe despenteava um fio, arrancava um berilo, escanchava-lhe as pernas e recompunha o penteado.

De vez em quando os meninos de Seu Acapita batiam palmas lá em casa. O Avô os recebia, fazia-os sentar. Tímidos, eles se entreolhavam, riam e sentavam. O mais velho tomava a iniciativa de falar. O Avô assentira com a cabeça quando ele dissera que leria um Salmo. O filho do meio comentava a passagem e o mais novo apertava os olhos, seguido dos outros, e fazia uma oração. O Avô baixava a cabeça, mas ficava de olhos abertos, achando graça nos meninos. No fim, a Avó chegava com ponche de uva e bolo de milho. E eu tinha raiva dos filhos de Seu Acapita, que se amostravam nas leituras, comiam o bolo sem deixar cair farelo e colocavam os copos na pia, pedindo para lavá-los. Uns amostrados, que andavam com a camisa embisacada e o mesmo risinho de dentes separados e sem barulho. O Avô pedira para que um dia desses me levassem a igreja, a fim de tomar gosto pela Escola Dominical e aprender os Mandamentos.

Quando os filhos de Seu Acapita saiam, os meus Avós lhe rasgavam elogios. “Viu a oração? Não tem Deus no mundo que não atenda uma beleza daquela. Esses pularam a cartilha e aprenderam a ler na bíblia. O mais velho está um rapagão”. Dizia isso olhando uma tirinha de papel com uma paisagem florida e letras miudinhas, que um deles havia tirado da pasta e o presenteado. O Avô tinha pouca leitura. Passou a vida cuidando de abelhas. Entrava no apiário sem a roupa de astronauta e o fumacê. As abelhas o conheciam. Guardavam os ferrões. O Avô sabia tudo sobre mel, polém, própolis, cera, colméia. “Ainda hoje, aposentado um tempão, tem abelhas que veem me visitar. Bebem melaço de rapadura e eu bebo café”. Senti no meu Avô uma vontade. A cara olhando meio de lado, vergonhosa. Queria que o neto soubesse ler aquela tira de papel. Uma tirinha de nada. Havia me colocado no Educandário por dois anos seguidos e já nos primeiros meses eu mostrava desinteresse. O prédio abafado, a tia dando bronca, os alunos amassando massinhas, grudando no cabelo, as orelha de coelho para cobrir, o bê a bá, o recreio entre os muros, as cantigas de roda, a lancheira dos smurfs derramando o ponche; molhando o bolo. Uma lavagem. A Gervásio Pires longe, à tarde comprida, as tarefas intermináveis, a cadeira dura, a mão sem habilidade para escrever; selvagem, o lápis duro, tremendo, os risinho de lado, as cotoveladas, a tia batendo palma, pedindo silêncio. O Avô pagava o Educandário até o meio do ano, pelejando para que eu voltasse. “Duvida que você não volte no ano que vem”. Dizia isso me dando os restos de matérias que estavam na escola. Zangado pela minha selvageria e por não ter leitura suficiente para ensinar-me em casa o alfabeto, as consoantes e os dígrafos.

“É homem de sorte o Acapita.” Dizia meu Avô.

Durante a semana eu vivia perguntando quantos dias faltavam para o domingo. E no domingo, acordava com o corpo amolecido, a cara contraída e os olhos no chão. “Está com anemia, não vai poder ir hoje. Vamos deixar para outro dia”. Do quarto eu ouvia os pedaços da conversa. “... pois então a gente passa aqui sem falta”.

Era escasso o meu repertório de doenças e meu Avô logo percebeu a artimanha. “Que é que tem de mais ir com os meninos, aprender uma oração, falar bonito: se o bom pai permitir, glória a Deus nas alturas, assim seja. Amém!” Não tinha jeito. Queria ficar em casa. Queria ficar na Gervásio Pires, solto igual aos pardais e urubus, que a pouco tempo começaram a voar por ali, “farejando desgraça”.

Logo era o Avô quem estava inventando as desculpas para os meninos. Ficava desgostoso com as mentiras, e naquele sacrifício eu percebia o amor e o respeito que tinha por mim. “Se não vai aprender as orações, também não aprenda as safadezas.” As mãos engelhadas na cintura, os olhinhos cerrados, a cabeça pendida e o traço da boca se abrindo e mostrando a dentadura. Aquele era o meu herói, sobrevivendo ao avançar dos anos, o diabetes, a morte do filho e aos caprichos do neto.

***

“Se eu morrer acabou-se. Quem nessa Gervásio Pires é eterno? Eterno só é mesmo o criador”. Era o que dizia seu Acapita quando lhe vinham alertar que a sua casa estalava e qualquer dia desses cairia.

***

Teve uma noite que houve alvoroço na rua. D. Nalha gritava e espumava feito louca. Com a menina no braço, saia puxando os outros filhos de dentro da casa. Os meninos saiam com bisacas de plástico cheias de roupas. O mais novo trazia a sua na cabeça, para aguentar melhor o peso. Todas as portas se abriram e a rua se encheu de gente. Veio gente da Ismael Tinô e Silva, da Princesa Isabel e até os nossos inimigos da José Bonifácio chegaram ali. “Que história é essa mulher? Isso é conversa do povo, vai acreditar nisso?” Seu Acapita puxava a mulher pelo braço e ela lhe dava um safanão. “Esperava isso de qualquer homem dessa rua, que eu sei que tem muito santinho por aí de braguilha frouxa; ora se não tem, mas de você Pita, todo reto e cheio de dengos, todo glória a Deus e aleluia... Bote a safada dentro de casa agora, compre queijo do reino, carne de sol, trate essa quenga como a rainha que ela é e deixe seus filhos comendo ovo e mortadela...”

Seu Acapita chorava: tinha uma das mãos no coração e outra na testa, limpando o suor. Havia se ajoelhado de tanta dor, mas a mulher nem ligou importância, puxou os meninos e subiu a Gervásio Pires. A escadinha de seu Acapita, chorando com as trouxas em cima da cabeça, diminuindo conforme subiam a rua.

Acudiram seu Acapita. Minha Avó lhe dera garapa misturada no comprimido AS. O homem derrubou a metade da água, tremendo que estavam às mãos. As dentaduras batiam no copo. “Se acalme homem. Amanhã sua mulher está de volta, onde é que ela vai com aquela reca de meninos?” O pobre de Seu Acapita mijara nas calças e os adultos fizeram de conta que não viram. Diferente das crianças, que ficavam curiando a mancha entre as pernas bambas.

***

A mulher de Seu Acapita não voltara. Recolheu-se na casa de um parente. O menino mais velho conseguiu um emprego no super-mercado Zacarias. Entregava as compras num carrinho. Seu Acapita vira o menino todo envergado, molhando a roupa de suor e reclamara. Devia estudar. Conseguir um emprego de balcão, uma faculdade, quem sabe, mas servir de mula pra granfino era que não podia. Então ele havia se sacrificado, chegando cedo e saindo tarde do matadouro, acertando marretadas na cabeça dos bois, amolando a faca no esmeril, cortando as peças de carne; limpando as nervuras, aguentando desaforo de marchantes e tudo mais para o filho entrar no mesmo rebolado. Isso era que não. Havia feito calos para que os filhos tivessem as mãos lisas e os bolsos cheios.

A mulher não gostou quando Acapita chegou com esses argumentos. “Filho sem pai é assim mesmo, tem que pegar no batente.” Disse isso como se ele fosse um estranho e não quis papo quando o homem pediu para que voltasse pra casa. “Estou bem aqui, a casa é grande, cabe todo mundo e as paredes estão inteiras.”

Seu Acapita agora vivia sozinho na Gervásio Pires. A casa continuava estalando e o homem não ligava importância. Emagrecera, criara feridas que expeliam pus. Era agora um homem desgrenhado e fedorento. O matadouro o havia dispensado. Ameaçou colocar na justiça mas aquietou o facho.” Tinha como campanhia as moscas zumbindo no ouvido.

***

No terceiro dia de inverno a casa de Seu Acapita veio abaixo. Não aguentara o peso das águas. A rua toda correu para acudir seu Acapita. Os homens derrubaram uma parede que estava em falso e começaram a empreitada para tirar os escombros e encontrar o moribundo.

No começo da noite os homens acharam Seu Acapita. Pararam o trabalho, baixaram a cabeça. As crianças foram proibidas de sair de casa e as mulheres começaram um terço ali mesmo, na chuva fina e no relento.

sábado, 29 de agosto de 2009


OS MORTOS DE GERVÁSIO PIRES

D. Menininha

D. Menininha era uma velha que havia continuado criança. A voz fina, dengosa, o andar apressado e os sapatos de menina. Tinha os cabelos cinza, fininhos e caindo nos ombros. Na testa se podia enxergar uma linhazinha verde, que entrava na cabeça se dividindo em y. Depois que o seu marido morreu, com uma dor no peito, aquele y ficara mais grosso. Um macarrão. Outra mudança fora o cabelo, agora curtinho. Lembro-me da primeira vez que a vi com o novo corte. Estranhei. Ela conversando com a minha Avó e eu achando que ela tinha virado homem. Explicava que o finado era quem a queria de cabelo comprido. Achava bonito aquelas tiras fininhas, esticando da testa até um pitó e daí descendo igual um rabo de cavalo. O maior charme, porém, era quando o cabelo estava solto, parecendo ‘o véu de Nossa Senhora de Fátima’. Mas viera o óbito do companheiro e a vaidade que tinha foi se esgarçando, sem platéia.

Vivia trancada no escuro e só abria a porta quando minha Avó batia forte, oferecendo uma tigela de mungunzá ou um pedaço de bolo. Das outras vezes só abria mesmo para os filhos, que a visitavam aos domingos. Escutei um dia ela conversando que não gostava dos netos. “Nasceram trocados: o menino tem a mãozinha mole e anda rebolando e a menina anda com as pernas abertas. Já peguei a traste mijando em pé. Deus sabe o que fez quando levou meu Manezinho, poupando-o de ver esses bichos se criando.”

Um final de ano ela apareceu na rua com um filhote de fila brasileiro. Um amarelo escuro. Encerado. A carinha de fronha, amassada e as bochechas caindo igual às papadas de Seu Jerônimo. Carregava-o no braço para cima e para baixo. Era sua companhia, de agora até o fim de sua vida.

Mandou o pedreiro construir uma casinha de bloco e telha brasilite. O piso cimentado, para evitar a lama do inverno. A mão de cal nas paredes para afugentas as pulgas e o nome que ela escreveu com giz de cera: Rambo.

Achamos ruim a idéias de D. Meniniha criar um fila. Aquele bicho passou a nos denunciar. Antes, quando a velha se trancava, praticando o seu luto, nós lhe roubava-mos: as garrafas de guaravina, que trocávamos por algodão-doce, as ferramentas do finado, todas com uma crosta de ferrugem, que ninguém limpava, para que pudessem pesar mais na venda do ferro-velho. Outras ficavam para nosso uso de costruir lambretas e carros de rolimãs. Depois as enterrávamos, escondendo o roubo. Agora o cachorro guardava as poucas ferramentas do velho Manuel.

Quando conversava com minha Avó, que estavam entrando em seu quintal e roubando as ferramentas do finado, a velha entristecia mais. “O Manezinho tinha um apego a elas. O enxadeco, a pá, o ciscador, tudo ele havia herdado do pai, que era um homem de muitos ofícios. Mais mulheres do que ofícios, a sogra me dizia. Mas, graças a Deus, o Maneco só havia conhecido a nossa cama. Foi de nossa cama para o caixão. Que Deus o tenha em bom lugar.”

***

O fila brasileiro crescia depressa. Latia rouco. Um trovão. Pisava nas folhas de abacate, que estalavam secas. Manhoso com a dona e uma fera com todos. D. Menininha saia com ele, pela manhã. Fazia sua caminhada, da Fabrica Jatobá até o Trevo. O bicho de lado, no estrangulador. As patas de elefante. O corpo de garrote, balançando. Se um gato aparecesse D. Menininha seria arrastada.

O fila havia passado do quintal para viver dentro de casa. Tudo por motivo de uma garrafa de café mal fechada, emitindo um assovio de bolhas estourando. A velha havia perdido o sono, pensando em assalto. “Só passava pela minha cabeça que haviam matado o cachorro e estavam chupando o sangue dele, dentro de casa, depois chupariam o meu.” E assim o fila passou a dormir dentro de casa e a fazer as necessidades em cima de jornais vencidos, que a velha comprava por quilo. As janelas voltaram a se abrir. A luz percorria a casa, espanando as lamurias e o mofo. O fila havia passado da sala para o tapete do quarto. D. Menininha, toda alegre, mandou o pedreiro pintar e retelhar a casa, desentupir a bica e emendar os buracos da calçada.

***

Anos depois, quando foram construir uma casa no mato que nos servia de esconderijo, encontraram as ferramentas do finado Manezinho. Os bolos de ferrugem foram raspados. Os ferros amolados, ganhando corte, foram entregues a D. Meninha, que os recebeu como se fosse uma medalha, de um esposo morto na guerra. Embrulhou as ferramentas num pano e as guardou num baú de mogno, junto com os sapatos, cintos, roupas, relógio, fotos e mais tralhas do finado, que a velha havia sepultado ali.

***

D. Menininha andava sorrindo com o fila. A dentadura com dentinhos miúdos e retos. O fila, grandão e amarelo, havia passado do tapete do quarto para a cama. D. Menininha, toda iluminada, voltou a parecer com a Nossa Senhora de Fátima.